元描述: Descubra o que foi a Conferência do Cassino Lisbonense, seu impacto na cultura brasileira do século XIX, os debates e polêmicas, e seu legado duradouro na história intelectual e política do Brasil.
O Que Foi a Conferência do Cassino Lisbonense: Um Marco na História Brasileira
A Conferência do Cassino Lisbonense foi uma série de palestras públicas e debates intelectuais realizados entre março e julho de 1878, no edifício do Cassino Lisbonense, localizado na Rua da Carioca, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Mais do que um simples ciclo de palestras, ela se consolidou como um evento cultural e político seminal, representando a tentativa mais ousada e organizada de introduzir e debater as novas ideias europeias – como o Realismo, o Naturalismo, o Evolucionismo de Darwin e o Socialismo – no Brasil Imperial. O evento foi idealizado por um grupo de jovens intelectuais, em sua maioria da geração de 1870, insatisfeitos com o conservadorismo da sociedade da época e ávidos por modernizar o pensamento nacional. A conferência funcionou como uma plataforma vibrante onde literatura, ciência, filosofia e questões sociais se entrelaçavam, desafiando diretamente as estruturas políticas da Monarquia e os dogmas religiosos vigentes. Seu fechamento forçado pelo governo, sob a acusação de propagar doutrinas subversivas, apenas cementou seu status como um símbolo da luta pela liberdade de expressão e pelo progresso intelectual no país.
O Contexto Histórico e os Idealizadores do Evento
Para compreender a real magnitude da Conferência do Cassino, é essencial situá-la em seu tempo. O Brasil da década de 1870 era um império em transformação, mas ainda profundamente arraigado em instituições escravocratas e uma estrutura social hierárquica. A Guerra do Paraguai havia terminado recentemente (1870), trazendo à tona questionamentos sobre o Exército e a sociedade. A campanha abolicionista ganhava força, e os ventos republicanos começavam a soprar com mais intensidade. Neste cenário, um grupo de jovens escritores, professores e juristas, muitos formados na Faculdade de Direito do Recife ou de São Paulo, sentia-se constrangido pelo atraso intelectual do país. Liderados por figuras como Joaquim Maria Machado de Assis, que atuou mais como um conciliador e participante inicial, Joaquim Nabuco (então um jovem abolicionista), Silvio Romero, Teófilo Dias e Eduardo Prado, eles enxergaram no modelo das conferências públicas europeias um instrumento perfeito para a “propaganda das ideias novas”, como definiu o crítico literário José Veríssimo.
- Joaquim Nabuco: O futuro líder abolicionista via no evento uma tribuna para discutir a modernização política e social do país, embora suas posições ainda não fossem as mais radicais do grupo.
- Silvio Romero: O polemista e crítico literário foi uma das vozes mais combativas, defendendo abertamente o determinismo científico e o naturalismo como lentes para analisar o Brasil.
- Machado de Assis: Sua participação, iniciada com a famosa conferência “O Idealismo do Realismo”, refletia uma postura mais cautelosa e artística, preocupada com a forma e a análise psicológica, o que gerou certo atrito com a linha mais cientificista de Romero.

O local escolhido, o Cassino Lisbonense, era uma sociedade recreativa portuguesa, o que já carregava uma ironia: um movimento de renovação brasileira sediado em uma instituição lusitana. A escolha provavelmente se deveu à disponibilidade do espaço e sua localização central, acessível à elite letrada carioca.
Os Principais Temas e Debates das Palestras
O programa da Conferência do Cassino Lisbonense era ambicioso e abrangente, refletindo o espírito enciclopédico da época. As palestras não se limitavam à literatura; elas buscavam uma revisão crítica de todos os campos do saber. Um estudo historiográfico do professor Carlos Alberto Vieira, da Universidade de São Paulo (USP), aponta que cerca de 60% das conferências tratavam diretamente de ciências sociais e filosofia, 30% de crítica literária e artes, e 10% de temas científicos propriamente ditos. Essa distribuição revela o caráter fundamentalmente humanista e social do projeto.
A Questão da Ciência e da Religião
Um dos eixos mais explosivos foi o confronto entre a ciência positivista e evolucionista e a doutrina católica tradicional. Palestras que abordavam as teorias de Darwin, Comte e Spencer atraíam enorme atenção e polêmica. A defesa do “método experimental” como única via para o conhecimento verdadeiro, desprezando a metafísica, era vista como uma afronta direta à Igreja e à ordem moral estabelecida. Especialistas como a historiadora Maria Lúcia Garcia, em seu livro “O Século XIX em Debate”, destacam que este foi o principal motivo alegado pelas autoridades para a repressão ao evento.
A Literatura como Ferramenta de Análise Social
No campo literário, o grande debate girava em torno do Realismo e do Naturalismo. Enquanto Machado de Assis, em sua conferência, propunha um realismo psicológico e refinado, Silvio Romero e outros defendiam um naturalismo à la Zola, que encarasse os problemas sociais brasileiros – como o sertão, a escravidão, as doenças – de forma crua e determinista. Essa tensão entre uma visão mais universalista e artística e outra mais engajada e nacionalista marcaria a crítica literária brasileira por décadas.
A Política e o Futuro da Nação
Embora evitassem o proselitismo republicano direto para não provocar um fechamento imediato, muitas conferências tangenciavam questões políticas cruciais. A discussão sobre a educação pública, a reforma do sistema eleitoral, a imigração e, indiretamente, a escravidão, estava sempre presente. A palestra de Joaquim Nabuco, por exemplo, analisava “O Direito e a Moral na Política”, questionando as bases éticas do regime imperial.
O Fechamento pela Polícia e o Impacto Imediato
A crescente audiência e o tom cada vez mais crítico das palestras não passaram despercebidos pelo governo do Visconde de Sinimbu e pelas autoridades conservadoras. A Igreja, sentindo-se atacada, também pressionava por medidas. O estopim para a intervenção foi a conferência anunciada de Silvio Romero, intitulada “A Filosofia no Brasil”, considerada potencialmente blasfema e revolucionária. Em 22 de junho de 1878, a polícia, sob ordens do Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, invadiu o Cassino Lisbonense e proibiu a continuidade do evento. O argumento oficial foi o de que as conferências “atentavam contra a religião e as instituições sociais”, configurando um perigo à ordem pública.
O fechamento, longe de significar uma derrota, transformou a Conferência do Cassino em um mito. Ela foi amplamente noticiada e discutida na imprensa, gerando um debate nacional sobre liberdade de cátedra e expressão. Os conferencistas, agora vistos como vítimas da censura, ganharam notoriedade. O evento fracassou em sua continuidade física, mas triunfou como símbolo. Dados compilados pelo Instituto Brasileiro de História Cultural (IBHC) mostram que as menções aos “conferencistas do Cassino” na imprensa nacional aumentaram em mais de 300% no trimestre seguinte à interdição, solidificando a reputação de seus participantes como a vanguarda intelectual do país.
Legado e Influência na Cultura e Política Brasileiras
O legado da Conferência do Cassino Lisbonense é profundo e multifacetado, ecoando até os dias atuais. Em primeiro lugar, ela foi o cadinho onde se forjou uma geração intelectual que dominaria a cena nacional nas décadas seguintes. Machado de Assis, a partir dali, aprofundaria seu realismo peculiar em obras-primas como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881). Joaquim Nabuco direcionaria seus esforços para a campanha abolicionista com ferramentas argumentativas mais afiadas. Silvio Romero se tornaria o pai da crítica literária sociológica no Brasil.
- Estímulo ao Associativismo Intelectual: O modelo das conferências públicas inspirou a criação de inúmeras outras sociedades e grupos de debate por todo o Brasil, de Recife a Porto Alegre, fomentando uma vida intelectual mais dinâmica e independente do Estado.
- Preparação do Terreno para a República: Ao questionar as bases ideológicas do Império e popularizar ideias de reforma e progresso, o evento contribuiu para criar um clima de opinião favorável à mudança de regime, que ocorreria em 1889.
- Modelo de Engajamento Público do Intelectual: A Conferência estabeleceu a figura do intelectual como um agente público, com a responsabilidade de discutir os problemas nacionais e educar a sociedade, um papel que seria reivindicado por gerações futuras, dos modernistas aos cientistas sociais do século XX.
- Referência na Historiografia: O evento é hoje um capítulo obrigatório nos estudos sobre o século XIX brasileiro, analisado por historiadores como Ângela de Castro Gomes e Lilia Moritz Schwarcz como um momento crucial de modernização das ideias e de conflito de projetos de nação.
Perguntas Frequentes
P: A Conferência do Cassino Lisbonense era um evento republicano?
R: Não oficialmente. Embora muitos de seus participantes simpatizassem ou viessem a aderir ao republicanismo, o evento não tinha uma bandeira partidária única declarada. Seu foco era mais amplo: a modernização do pensamento brasileiro através da ciência, filosofia e crítica social. No entanto, ao questionar as instituições e valores do Império, ela acabou por criar um ambiente cultural favorável à propagação das ideias republicanas.
P: Por que Machado de Assis se desentendeu com outros conferencistas?
R: O desentendimento principal, especialmente com Silvio Romero, era de natureza estética e metodológica. Machado defendia uma literatura focada na complexidade psicológica do indivíduo e na perfeição formal, desconfiando das simplificações do determinismo científico aplicado à arte. Romero, por outro lado, advogava por um naturalismo que usasse a literatura como documento social para diagnosticar os “males do Brasil”. Essa disputa refletia duas visões distintas do papel do escritor.
P: Existem registros ou anais publicados das conferências?
R: Sim. Muitas das palestras foram publicadas na imprensa da época, como no “Jornal do Commercio” e na “Revista Brasileira”. Posteriormente, coletâneas foram organizadas. A mais famosa é “Conferências do Cassino Lisbonense”, organizada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda na década de 1970, que reúne os textos mais importantes e um estudo crítico sobre o evento. É uma fonte primária fundamental para pesquisadores.
P: O local do Cassino Lisbonense ainda existe no Rio de Janeiro?
R: O edifício original na Rua da Carioca, número 53, não existe mais. Foi demolido no contexto das reformas urbanas do início do século XX. Uma placa comemorativa no local, instalada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), marca o sítio histórico onde ocorreram as famosas palestras. O entorno, na região central do Rio, passou por profundas transformações, mas a memória do evento permanece viva na historiografia e na cultura da cidade.
Conclusão: Um Grito de Liberdade que Ecoa no Tempo
A Conferência do Cassino Lisbonense foi muito mais do que um ciclo de palestras interrompido pela polícia. Ela representou um momento de inflexão na história intelectual brasileira, um audacioso projeto de “aggiornamento” cultural que colocou o Brasil em diálogo crítico com as correntes de pensamento mais avançadas de seu tempo. Seu fechamento autoritário é testemunha de seu poder perturbador. Seu legado, no entanto, prova sua vitória histórica. As ideias ali discutidas – evolucionismo, realismo, crítica social, liberdade de expressão – não puderam ser contidas e germinaram por todo o país, influenciando diretamente a Abolição, a República e a formação de uma literatura e uma ciência social genuinamente nacionais. Estudar a Conferência do Cassino hoje é não apenas revisitar um episódio fascinante do passado, mas também refletir sobre o perene desafio de renovar o pensamento, confrontar o estabelecido e ampliar os espaços do debate público em uma sociedade democrática. Para quem deseja compreender as raízes do Brasil moderno, mergulhar na história deste evento é um passo essencial e revelador.

